Quem vigia os vigilantes?

Tiago

O real existe

O real existe

O que existe não depende de nenhuma aprovação ou prova material. O real existe e é o que insiste em ser. O real é aquilo que resiste mesmo quando nosso objetivo é substituir por uma história mais confortável. A percepção individual das coisas não valida o que de fato existe. O mundo é real. O real existe.

Estamos envoltos na cultura da subjetividade onde cada pessoa, dotada de experiência pessoal e história, tende a entender sua visão e percepção com a própria realidade. Nós interpretamos o mundo, e isso sim é válido. Só que sua interpretação não cria o mundo. Para Byung-Chul Han, estamos na sociedade da transparência e positividade e o excesso de exposição virtual e a busca/necessidade de validação constante dissolve e diminui a negatividade. E o mundo não é o que cabe na tela.

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E somos moldados a todo momento pela tela. Pelo virtual. As mídias sociais, a internet instituída com a lógica do consumo dita pensamentos, tendências, constrói narrativas de necessidades. E isso molda comportamentos. A "sociedade da atenção" exige isso. Nossa atenção é disputada pelo melhor algoritmo, melhor aplicativo e orientada à trends e tendências do virtual. Nós, como seres humanos, não somos uma invenção da subjetividade e tampouco escolhemos as condições de nossa existência, nós existimos. E construímos nossa experiência concreta no mundo e não é possível dominar o que é real e colocá-lo em uma caixinha de forma controlada. E somos sim, controlados pela tecnologia, normatizados pelos algoritmos. Fazemos uso da tecnologia através da linguagem e instituímos um poder simbólico na tentativa de sempre editar e moldar o real e não o visualizamos como o tecido da realidade e a verdadeira estrutura pura da existência.

E, dessa forma, é necessário entender que o problema não é a tecnologia em si mesma mas a amplificação de uma existência virtual, falha e inócua. Essa fluidez do virtual, até emprestando a realidade líquida de Bauman, constrói uma identidade que se recusa a aceitar as imperfeições e resistência do mundo real. E o real existe.

O excesso do virtual, a interlocução midiática onipresente e a cosntrução artifical do que lemos, agimos, sentimos, pensamos e praticamente consumimos remove nossa responsabilidade/liberdade de lidar com um mundo que não foi construído de forma personalíssima para nós. Os "ventos do norte não movem moinhos" como canta Ney Matogrosso. Imprimimos esforços e energia no mundo mas mediado pelo virtual, com nossa intenção filtrada e direcionada. Com nossas decisões premeditadas e nos imputadas. O virtual molda pensamento e comportamento. E, nossas ações sem aderência à intenção não é movimento. É apenas uma aparência de movimento, um vento que não move o moinho. É virtual.

Aqui faz-se necessário invocar o mote da Resistência. Resistir não é lutar contra o real. Resistir é permanecer no virtual mas sem excessos, como um ato de lucidez, reconhecendo os mecanismos que nos capturam a intenção, estrututuras que nos moldam o desejo e comportamento e, fazendo uso de nossa liberdade existencialista, ditar a autonomia sobre o próprio tempo subvertendo a lógica da distração e estímulos contínuos.

Existe sim essa possibilidade de fugirmos do ruído, nos preservarmos do excesso e selecionar o que deve ter nossa atenção.

A resistência é construir presença diante da dispersão, é escapar da armadliha da atenção e nos conectar ao que é real, pois o real existe.

Referências

HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

UNSPLASH. Uma figura solitária está em uma bacia de concreto vazia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/uma-figura-solitaria-esta-em-uma-bacia-de-concreto-vazia-tc7sOvo8brU. Acesso em: 29 mar. 2026.

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